CENAS DA VIDA DE UM PINTOR - O VIAJANTE IMÓVEL - SERGIO LUCENA

O viajante imóvel

Jacob Klintowitz

Esta poderia ser uma biografia, mas é só um percurso de busca: Sergio Lucena nasceu na Paraíba, morou na Chapada dos Guimarães, em Berlim e, agora, em São Paulo. Aqui se trata do sensível, do seu caminho e da intensidade do chamado. E esta mostra apresenta esta trilha através do dado real, momentos diferentes de sua pintura: sátira, animais sagrados, o eixo do mundo e paisagens metafísicas.

É possível que o pintor Sérgio Lucena seja o último paisagista da longa tradição brasileira que já nos deu artistas do porte de José Pancetti e Alberto da Veiga Guignard. Mas a sua é uma paisagem que não parece localizada em algum lugar reconhecível.

Curioso percurso deste gênero: começou quando Georg Grimm abandonou o recinto fechado da Academia Imperial de Belas Artes e a sua herança de “luz francesa”, para pintar ao ar livre, nas ensolaradas praias de Niterói. E, ao que parece, chegou ao ponto de, com Lucena, situar-se numa região geográfica inexistente, numa espécie de sitio espiritual da qual a paisagem é a emanação pictórica. Um belo percurso: artificial, a cor e a luz brasileira e, ao final, o registro de uma paisagem da alma.

Talvez essa pintura sutil possa, em alguns momentos, ser identificada com a abstração geométrica. Entretanto, nem sempre isso é factível, pois, na essência, não se propõe a tratar de relações exatas. Ao contrário, ela mantém a intensidade da emoção. O que emociona nestas imagens? Sem dúvida a qualidade da pintura, mas também há uma recuperada memória, quem sabe o sentimento de algo imemorial, ou o ressurgir de uma sensação que parecia para sempre perdida.

A pintura de Sérgio Lucena é a revelação de um continente individual. Não de um lugar mensurável, mas transcendente. Entretanto, este continente submerso que emerge completo e individual, é humano e, por nuclear, semelhante ao humano. É onde

convergimos, o contemplador e a pintura, neste núcleo primevo. Ao pesquisar e revelar o continente oculto, este mítico continente que nunca submergiu, pois sempre esteve ali, o artista registra o nosso acervo, o que é comum a todos. E o contemplador amplia os limites de seu universo ao se reconhecer na paisagem utópica.