AZUL NO NEGRO - MAI-BRITT WOLTHERS

27.10.2015 a 05.12.2015 - Mai-Britt Wolthers - AZUL no NEGRO


AZUL NO NEGRO


O céu é azul porque a luz refletida na terra volta em direção ao espaço negro através da atmosfera. Da mesma forma o mar, onde a luz penetra alguns metros em direção ao fundo escuro. Ou as montanhas ao longe, que parecem azuladas. Goethe, Teoria das cores.

No romance que marcou a carreira do escritor francês Stendhal, o vermelho e o negro do título correspondem a uma tensão entre forças potencialmente contrárias. O vermelho, aludindo ao amor como pulsão de vida e transformação, e o negro, como pulsão de morte. O grande fascínio da narrativa está justamente nessa construção complexa e cheia de nuances em que o protagonista, Julien Sorel, transita constantemente entre o bem e o mal, combinando loucura e sensatez, como na frase do escritor alemão Goethe, usada no livro pelo próprio Stendhal.

Foi também Goethe, durante o mesmo século XIX, quem construiu uma teoria das cores baseada na ideia de que cada cor nasce do resultado da interação da luz com a "não luz", isto é, com a escuridão. Durante 40 anos, Goethe desenvolveu a teoria, acreditando na produção das cores a partir da junção de opostos.

Talvez resida justamente aí a grandeza do artista: a capacidade de juntar bem e mal, presente, passado e futuro, luz e sombra, questões formais e mistérios da existência.

Também nas obras de Mai-Britt Wolthers afloram sentidos de contraponto e ambiguidade. Particularmente, as obras do projeto Azul no Negro são resultado de uma viagem e expedição artística que ela realizou no rio Negro amazônico, onde a imensidão do céu contrastava com a cor escura do rio. Mas há muitas outras camadas nessa leitura densa, pincelada por tonalidades diversas, muito além das azuis e negras.

De fato, em sua história de vida, a artista sempre percebeu um duplo sentido à vocação estética que despontou cedo. De um lado, a preocupação formal, ligada a uma perseguição de questões como cor e composição, que definem e dão corpo aos assuntos próprios do fazer artístico.

Adolescente, vivendo com os pais na pequena cidade dinamarquesa Ringsted, Mai-Britt, ela gostava de fazer buquês e organizava minuciosamente as flores de acordo com as cores de suas pétalas.

Ao mesmo tempo em que cultivava o espírito sistemático, a menina divagava nas paisagens que visitava, durante as viagens da família perto da natureza. Era também escoteira, atividade que lhe impingiu-lhe o costume de passar dias acampada junto a florestas temperadas locais. Ali, naqueles momentos, se fundava uma sensibilidade voltada ao misterioso, ao feminino, às narrativas secretas do que é intocado pela cultura.

Não havia então condições para uma dedicação integral à arte, mas sempre que podia, Mai-Britt participava de cursos livres de arte e artesanato, oferecidos na cidade. E quando se casou com um brasileiro e veio morar no país, trouxe consigo o conjunto de tubos de tinta acrílica que havia comprado no país natal, como um símbolo a lembrar-lhe de alguma coisa que ainda precisava ser realizada.

E foi no processo de criar e educar os filhos que a artista foi desabrochando. Primeiro foram os cursos de aquarela, que viraram as primeiras obras comercializadas. Depois, o desejo de fazer trabalhos maiores, mais fortes e com mais cor. E assim surgiram as primeiras telas grandes, os primeiros campos cromáticos. As primeiras expressões de uma pintura que se aproximava das bordas de uma abstração.

No decorrer da prática da pintura, Mai-Britt foi desenvolvendo suas superfícies de cor com formas, ora definidas, ora desconstruídas, movendo-se em direção a uma intersecção de aparentes opostos: o vigor puro centrado na composição e no uso da cor, de um lado, e a ativação intuitiva de uma alusão à natureza, seus mistérios e sua destruição, de outro.

No percurso de várias exposições que se somaram em seu currículo, a partir dos anos 2000, a artista acirrou um desejo de conhecer as florestas brasileiras mais profundamente. Anos já haviam se passado desde que se fixou na cidade de Santos e fez da praia uma paisagem cotidiana. Faltavam agora as florestas, que ela começara a vislumbrar a partir do contato com a mata atlântica.

Foi numa primeira viagem, feita com amigas, que primeiramente se deparou com a força do rio Negro. Sentiu-se num universo sagrado, eminentemente feminino, onde o volume caudaloso, as águas quentes aludiam a uma imagem uterina. Munida de bexigas vermelhas, carregadas por conta de um aniversário, Mai-Britt teve pela primeira vez a ideia de adornar uma grande árvore à beira do rio com aquelas formas de cor intensa.

Atraída pela estranha paisagem, a artista voltou ao local, situando-se dentro do arquipélago Anavilhanas, no rio Negro amazônico, acompanhada do fotógrafo Marcus Pfiffer e da cinegrafista Viviane Soares.

Ciente agora da potência estética de seu projeto artístico, Mai-Britt construiu um microuniverso de imagens que brotaram daquele encontro. A cor escolhida como tema foi então o azul celeste.

Aquela seria a paleta para a pintura de uma série de cuias, feitas com o fruto amazônico cuité, compradas em Manaus. As pinturas foram realizadas no próprio local e registradas numa performance, em que a própria artista atua vestida inteiramente de negro. Ali ela parece encarnar o significado da sombra na natureza humana.

As imagens fotográficas, algumas pintadas pela artista, recobertas com o mesmo azul, em veladuras que deixam apenas algumas indicações da floresta, registram essas ações. Um vídeo mostra o processo de trabalho e se reveste de uma narrativa onírica: a quase-história se inicia com a personagem-sombra entrando pela estação de metrô paulisitano Trianon-Masp e desembocando em meio à exuberante paisagem que cerca o rio Negro. Ela pinta as cuias de azul, pendura-as na grande árvore. A câmera rodeia aquele lugar onde o sublime reina, até que o personagem retorna pelo buraco da mesma estação de metro em que partiu.

O caráter experimental desse vídeo faz parte do universo azul, sensível e imaginativo de Mai-Britt. Aqui também estão localizados os dois objetos escolhidos para compor a mostra: um grupo de cuias azuis, aglomerados por uma resina na forma de um cubo e uma semente resinada, depositada num oratório, como se fosse um sagrado.

Pinturas grandes sobre papel, pinturas pequenas sobre tela—todo esse universo brinca com os limites entre figura e abstração porque sugerem caminhos que acabam se rendendo aos campos expandidos e, majoritariamente azulados. E então se percebe que aquele corpo negro pode significar não necessariamente um ser sombra, mas uma forma em movimento, uma pontuação de cor ou contraponto preciso de composição, insuflando contraste à imensidão celestre. Um negro no azul. 
 

Katia Canton