INVENTANDO CORPUS - ANA AMÉLIA GENIOLI


Inventando Corpus | Ana Amélia Genioli

A obra da artista Ana Amélia Genioli tem sido marcada pela sutileza e pela percepção de modos particulares de ver/sentir experiências da vida. Em diferentes momentos, Ana transformou em arte punhados de terra, mensagens de amigos, o luto,  imagens de cidades e pessoas sobrepostas. O seu desafio é dar materialidade a mapeamentos emocionais.

Desta vez, em Inventando Corpus, a criação tem como ponto de partida linhas desenhadas em folhas de papel. Mas nada é o que parece.


O filósofo tcheco Vilém Flusser costumava dizer que as linhas são discursos de pontos e que cada ponto é um símbolo de algo que existe. Por isso entendia que as linhas representavam o mundo ao projetá-lo sucessivamente.


Esta exposição poderia ser o exemplo ideal para a sua hipótese. A matéria-prima parece a linha mas, de fato, são os deslocamentos e representações.  Seriam estes discursos de mundos simbólicos?


Ana trilha caminhos de indicialidades que fazem  do observador um cúmplice do processo de criação, sugerindo ainda outras indagações e enigmas:

Em que medida a imagem fragmentada de um corpo ativa uma certa imunidade a toda e qualquer noção de completude e inteireza? 
Quem desenha a linha: a mão ou o olho?
O que acontece quando o espaço e o tempo se transformam em experiências de descontinuidade?

Nas paisagens inventadas, o fragmento não limita ou amputa, mas aponta reentradas. A imagem que se vê exige um exercício de imaginação para que seja possível criar nexos de sentido entre a linha, os lugares fotografados e os corpos. A linha constrói a imagem mas não permanece como traço estável paralisada residualmente a partir do gesto da artista.  

Usando a técnica do frottage, os desenhos migram pela folha de papel, escorrem para outra folha e finalmente pela parede criando uma cartografia de percepções. A dinâmica dessas migrações indica que o gesto não se completa no vestígio do movimento sobre a folha ou no enquadramento da imagem de algum lugar. Ao invés disso, cria espacialidades sem se aprisionar. 

Não há identidades claras, nem pontos de partida ou de chegada.  
Ao final, conclui-se que é justamente o gesto que não se vê que se apresenta como  momento poético do pensamento e nos resgata dos nossos lugares comuns.

Christine Greiner
Professora do Departamento de Linguagens do Corpo da PUC SP nos cursos de Comunicação das Artes do Corpo e no Programa de Estudos Pós-graduados em Comunicação e Semiótica.