A CAPELLA - CLAUDIA MELLI

18.06.13 a 03.08.13

“Retornou pelo mesmo caminho, o ritmo da máquina martelando seus ouvidos. Começou a duvidar do que a memória lhe dizia. Parou sob uma árvore e esperou que aquele ritmo se extinguisse. Já não sentia a presença dela na escuridão, nem sua voz roçando-lhe os ouvidos.
Esperou alguns minutos, atento: nada. A noite estava em completo silêncio. Esperou um pouco mais: silêncio total. Sentiu que estava só”.

Dublinenses – James Joyce – “Um caso doloroso” 

 

O canto à Capella é aquele entoado sem o uso de qualquer instrumento. Voz solitária. Esta remissão a um tipo de canto que nos endereça um chamado para um estado de quietude e interiorização pode ser visto como um gesto, mesmo que prosaico, que caminha na contramão de um mundo atual perpassado pelo ruído incessante. É desta natureza, mais próxima do murmúrio, de que nos fala as obras de Claudia Melli expostas na Galeria Eduardo Fernandes na mostra “Capella”.

Antes de qualquer gesto interpretativo é preciso recordar o processo de realização dos trabalhos da artista no que tange a técnica. Lembremos que o termo técnica, para os gregos antigos, significava arte. Ou seja, a téchne estava intimamente ligada ao processo de construção de uma poética, como mais tarde vai retomar Heidegger em seu texto “A Questão da Técnica”.

Assim, as escolhas “técnicas” do artistas estão intimamente ligadas ao “conteúdo” da obra. Quando enxergamos de longe um trabalho de Claudia cremos que estamos diante de uma fotografia. É somente um olhar mais atento e próximo que vai revelar que não se trata de uma foto, mas sim de desenho com nanquim sobre vidro. Esta conquista de um estado ilusório se dá através da alta precisão do desenho, do contraste entre o preto e o branco, entre claro e escuro. Mas o que tal técnica quer dizer, o que significa desenhar com nanquim sobre vidro no lugar de fotografar, mas ainda assim evocar o ato fotográfico?

Esta pergunta é importante para chegarmos ao sentido do trabalho. O tempo que leva para a realização de cada obra (sempre única e não reprodutível), a concentração e o cuidado exigidos, o preciosismo que tal método demanda, todos estes elementos rimam com trabalhos nos quais a solidão se faz presente, nos quais nunca há presença de seres humanos.

Tal modo de fazer encontra eco nos espaços vazios, permeados por presenças ausentes, ou mesmo paisagens que evocam certa melancolia, lembranças de um lugar já visto. Aí reside o parentesco com a fotografia, símbolo daquilo que congela um tempo e deflagra uma memória palpável de algo que já passou.

Na série “Nem todo silêncio”, na qual vemos balanços em movimento, o que nos é dado é uma cena familiar, que deixa entrever que alguém já esteve ali, uma passagem humana se deu, mas o que se opta em registrar é o vestígio de uma presença ausente, o antes e o depois, não o momento central do acontecimento. Tal escolha, mais uma vez, se revela como uma afirmação na via oposta de tempos que fazem o elogio incessante da lógica do espetáculo.  

A faculdade de lembrar, demandada por tais desenhos, é irmã da capacidade de fazermos com que o presente, mesmo que não esteja preenchido por afazeres, possa estar habitado. Ou seja, lembrar, imaginar, é povoar a vida subjetiva de maneira forte sem que necessariamente tenhamos que “fazer” coisas. A época atual, bem sabemos, nos exige, tal como uma ditadura invisível, que sejamos produtivos, que o nosso desempenho seja admirável, importando antes a quantidade de coisas que colocamos no mundo, ou nos nossos currículos, do que exatamente a integridade daquilo que fazemos. Tudo isso está intimamente ligado à uma certa lida com o tempo.

As estradas são símbolos de lugares de passagem, e o horizonte remete a um ponto a ser alcançado. As estradas de Claudia nos levam para lugar nenhum, ou seja, não obedecem ao imperativo de andar sempre, e para frente, é claro.  Já as suas árvores, da série “Capella”, nos reenviam à uma atitude contemplativa frente à uma paisagem silenciosa e melancólica, instaurando uma atmosfera próxima àquela que permeia as palavras do conto de James Joyce.

Se fossemos pensar em uma temporalidade presente na obra de Claudia, a mesma seria menos regida chronos, e mais próxima de kairós. Os gregos antigos possuíam duas palavras para a moderna noção de tempo: chronos e kairós. Enquanto a primeira era usada no contexto de tempo cronológico, sequencial e linear, em relação ao tempo existencial os gregos usavam a terminologia kairós e acreditavam nele para enfrentar o cruel e tirano chronos. Enquanto o primeiro é de natureza quantitativa, kairós possui uma natureza qualitativa. Sabemos bem que vivemos, diariamente, com os inúmeros “cronogramas”, sob a ditadura de chronos. Kairós é uma inflexão neste regime. A arte é um âmbito que pode, ainda, nos fazer não esquecer que o tempo é múltiplo: não é somente chronos, mas é também kairós, tempo oportuno, da ocasião que se pega ou se deixa, do não previsto, da surpresa, do que escapa ao controle dos cálculos.

Os vazios instaurados pela artista, seu vínculo com um partido contemplativo, sua ambigüidade que introduz a semelhança para fazermos pensar na diferença, suas estradas e mares que não possuem bússola, mapas, pontos de chegada, toda esta gramática poética faz com que Claudia Melli construa, sob a égide do murmúrio, uma obra de resistência.

Frente aos desenhos da artista somos induzidos a um momento de pausa. O silêncio se impõe. E aí, quem sabe, possa surgir a chance de escutarmos a nós mesmos e os pequenos murmúrios abafados por um mundo que grita sem saber por quem deseja ser escutado. Que corre freneticamente sem saber exatamente onde vai chegar. Num cenário assim, a fala baixa, o tempo mais lento, surgem como maneiras potentes de se instaurar uma diferença na realidade ao redor. “Capella”, de Claudia Melli, possui, na sua delicadeza, esta potência rara e tão necessária.

Texto por Luisa Duarte.