ASCENSOR - EDUARDO CLIMACHAUSKA


A lâmina do tempo

São duas as séries de trabalhos que Eduardo Climachauska apresenta nesta segunda individual na Galeria Eduardo Fernandes. Uma é composta por três esculturas/instalação que representam guilhotinas e a outra composta por desenhos/pinturas sobre pranchas de madeira.

Diante da complexidade dos trabalhos propostos, a tarefa de tentar “traduzir” tal “complexidade” dirigida ao público de arte através de um texto crítico ou um ensaio, encontra nesta “mediação” uma certa dificuldade ao examinar as possiblidades não de uma, mas de diversas respostas endereçadas a quem os observa.

Neste primeiro contato com a obra antes de partir para este texto “mediador”, a única possibilidade de aproximação ou convergência entre um trabalho e outro, é a idéia de uma ação violenta que os envolve. Na primeira, a própria imagem em si de uma guilhotina, nos remete a possibilidade do corte violento de partes do corpo por uma pesada e afiada lámina de ferro que é içada e depois solta no abismo dos trilhos que a conduzem em alta velocidade para baixo. Decepando tragicamente o que estiver no seu caminho. Termina sua trajetória em um estrondoroso barulho. É um objeto com significados históricos e representativo de uma época, no mínimo repulsiva e assustadora, em que era usada para cumprir penas de morte arrancando as cabeças dos condenados. Ao trazer esta “imagem” para uma galeria de arte, pode se entender ai um gesto político do artista possível para se pensar na atualidade um contexto social intimidador dentro dos espaços de contrôle e poder vistos na sociedade. O artista parece querer radicalizar com esta condição humana ao propor neste trabalho um corte violento entre passado e presente. 

Na contramão dos trabalhos interativos que surgem em profusão nas exposições de arte, este de Climachauska, pelo contrário, pede o afastamento do público. Cria um distanciamento pelo medo diante de um material frio e carregado de significados violentos.

A guilhotina foi um instrumento de “justiça” criado por um medico francês que incialmente se interessou por arte, de nome Joseph Ignace Guillotin, por ocasião da Revolução Francesa no final do século XVIII. A intenção com sua invenção era a de dar uma morte menos sofrida e mais rápida para os condenados às penas máximas. O médico tinha a intenção de propiciar uma morte suave para as pessoas, sem distinção social. Tornou-se um instrumento popularizado na França até há muito pouco tempo, quando em 1977 aconteceu a última condenação, utilizando-se desse método.

O “instrumento” tornou-se das mais sanguinárias e aterradoras formas de se tirar a vida.

Nos remotos tempos da Revolução Francesa, arregimentava multidões que acorriam às praças públicas para assistirem ao dantesco espetáculo, saciando a curiosidade e o desejo humanos, pelo sanguinário.

A segunda série que cria um contraste com a primeira, talvez pela aparente falta de intencionalidade. E também composta de um gesto violento em certa medida, comparando-se com o primeiro trabalho. Só que agora desprendido, pelo próprio artista na sua ação de pintar ou desenhar sobre pranchas de madeira finamente acabadas.

 O resultado é de uma simplicidade absoluta e não fica clara a intenção do artista neste ato do “pintar” quase “banal”. Joga tinta (uma única cor prata) em pequenas quantidades contra este campo “pictórico”. Gesto ou ação controlado que se repete por duas vezes. Fica no limite do que compreendemos entre uma pintura e um desenho. Depois, com linhas toscas e densas une as duas manchas de tinta em um vai e vem.

Ao se observar o conjunto o desenho entre as placas de tinta provoca uma ilusão, como se aqueles traços tomassem corpo e profundidade criando uma outra dimensão no plano bidimensional da madeira.

Eduardo Climachauska, que nasceu em São Paulo e tem descendência lituana, formou-se pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, em 1980. Trata-se de uma longa trajetória artística expressa em diversas linguagens: instalação, fotografia, desenho, pintura e esculturas ou estruturas que lidam com a força motriz. São os meios que emprega para constituir sua obra nestes quase 30 anos de carreira.

Passados vários anos desse meu primeiro encontro com a obra do artista no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, em 1991, ocasião em que o grupo composto pelo irmão Paulo Climachauska e a artista Lina Kim, apresentou a mostra Três Dimensões da Objetividade, fica evidente algumas relações conceituais em sua obra, em suas diferentes fases.

As primeiras esculturas e instalações eram instrumentos pontiagudos como  antenas de para-raios, fios e  com a predominância do cobre.

Em 2007 expos no Centro Cultural Maria Antônia, uma instalação que desafiava  nossa percepção de estabilidade. Conjunto de armários antigos, cristaleiras acumuladas em um canto superior da sala de exposição, formando uma massa e  interligados e fundidos entre si, apoiados por extensores de aço.

 A sensação era de instabilidade. A estrutura que se formou parecia prestes a desabar sobre quem se arriscava postar-se sob a  instalação. Suas propostas, portanto, já traziam um pouca dessa agressividade, observada agora, nestas guilhotinas.

Uma delas não está congelada em sua descida e fica em um interminável movimento pendular. As demais parecem congelar o tempo, no instante decisivo da trajetória da lâmina, a correr para baixo no vazio da história da civilização. 

Ricardo Resende
Crítico de Arte
São Paulo, Outubro de 2008.