DEUSES - SERGIO LUCENA - MUBE

Os Deuses estão chegando

A precisão de suas volutas, de seu elaborado desenho, do preto e branco e cinza e dourados, enovelados a tal ponto que nos sugerem caminhos labirínticos que ecoam e despertam memórias que pensávamos para sempre sepultadas, nos enche de júbilo. Os Deuses estão chegando. Não sabemos de onde vêem, mas imaginamos que seja do centro e do interior, pois eles próprios têm qualquer coisa de subterrâneo e de grandioso, como só os que nunca vemos, os que já esquecemos, os que sabem de nós mas não tem pressa, possuem esta magnificência.

Já os teremos visto? Não sabemos se é a nossa memória ou a nossa intuição prospectiva, se estamos no passado ou no porvir, mas o seu reino nos é conhecido, ou em nós encontra eco, e o sentimos em ouro e prata, brilhos metálicos, mas sem brocados, todos inúteis diante da superfície delicada que os recobre.

Um sábio de quem sempre se ouviu falar, um que terá o nome obscurecido pela lenda mas que sabemos oriental e cujo som nos impressiona por formar ovais e círculos, e não sabemos mais grafar, acreditou ter encontrado ressonâncias da mensagem primordial justamente nessas volutas que ora nos assombram. Desejei, como tantos, saber mais sobre os Deuses e os seus labirintos, e o som que nos originou, e, principalmente, quis conhecer o caminho que leva ao inefável Reino do Meio, mas estas são perguntas dos que ainda não podem saber.

Talvez nem paisagens sejam estas paisagens que nos alumbram e nos envolvem em seu esplendor. Não divisamos a linha do horizonte pois a luz não se conforma ao espaço e na sua esfericidade impressiona o nosso olhar. No centro da pintura, alguma coisa como a memória de uma árvore. Ou alguma coisa como um magma ardente que jorra incessantemente. Ao centro, um indício sugestivo,

uma forma evocativa. Diante de nós estas formas no limite da forma, às quais devemos estar atentos pois já nos fogem, evanescem, não se deixam aprisionar pela intenção do olhar. E, no entanto, estão sempre conosco, disponíveis, estáveis, manifestas. Como nuvens, quem sabe? só nos encontram quando não desejamos contê-las entre as mãos.

O certo é que são formas criadas na pura tradição da pintura, com os contornos estabelecidos pelos ajustes de planos, pela contigüidade dos pigmentos, um desenho que define os corpos feitos apenas com os recursos pictóricos. Impossível não identificar este procedimento de rigorosa plasticidade com o método Delacroix.

Etéreas e luminosas, nós identificamos estas formas centralizadas como árvores, porque em nós é viva a presença luminosa e etérea da árvore. Sabemos que o artista trabalha com modelos ideais pela ressonância no contemplador. E estas pinturas que buscam a luminosidade e nos apresentam gradações sutis e infinitas de cinzas e são tão particulares, individuais e inéditas, nos revelam uma cadeia histórica de artistas que buscaram a luminosidade. Especialmente o francês Claude Monet e o venezuelano Armando Reverón. A última pintura sempre ilumina a história da arte.

As duas últimas fases da pintura de Sérgio Lucena aparentemente são vetores que apontam em direções opostas. De um lado, uma série de animais quiméricos, compostos, organizados com partes de várias espécies, mas integrados num só corpo. Ou animais conhecidos, mas envoltos em camadas luminosas que terminam por fazer parte de sua realidade. Estes animais, ora híbridos biológicos, ora híbridos de matéria e espírito, nos remetem para o universo mítico e para uma suposta origem da espécie humana. Nós os poderíamos encontrar nas ruínas de uma cidade sufocada pelas cinzas vulcânicas, nas paredes de um templo milagrosamente preservado e os classificaríamos como animais de um culto obscuro. E diríamos que representavam a fertilidade e que eram pinturas votivas. Entretanto, nestas pinturas existe uma contemporaneidade

inarredável, uma simultaneidade de recursos pictóricos, e, principalmente, de concepção, que só poderiam pertencer à nossa civilização. Primordiais, sim. Mas a maneira como o primordial surge em nossos dias.

A outra série de pinturas, registra paisagens terrenas e cósmicas. Mas nunca vimos paisagens semelhantes no nosso planeta. As macro-ímagens cósmicas que a tecnologia nos coloca à disposição, e as micro-imagens que ela registra, apresentam pontos de contato com estas pinturas que, à força de tentar rotular, chamamos de paisagens. O que têm em comum o universo do muito pequeno ou do imenso, é uma manifestação de emanação gloriosa. E é esta mesma sensação que percebemos nesta fase do artista. É evidente que estas pinturas buscam a radiação gloriosa, a manifestação de um estado além da banalidade cotidiana. Estamos diante, portanto, do registro pictórico de uma irradiação de um estado particular da existência.

O que tornam complementares estas duas fases do artista é este elemento comum e único, constante nas duas séries de pinturas, a percepção da irradiação luminosa, o registro do além-matéria ou, se quisermos, a verificação da multiplicidade de virtudes do real. O pintor Sérgio Lucena trabalha com a mais grave pesquisa, aquela que se passa no seu interior, neste pouco divulgado universo de dentro. Impossível encontrar as referências visuais deste trabalho em outro lugar que não este lugar incógnito. Ao descobrir a si mesmo, ela descobre a sua pintura.

Existem pontos de contato que identificamos entre esta pintura e aspectos do universo que a ciência atual e a história das religiões revelam. E é uma certa atmosfera, uma espécie de aura radiante, que é comum entre tão diversos registros. O que une a pintura de Sérgio Lucena aos símbolos e ícones tão distantes historicamente quanto as civilizações antigas e a ciência hodierna, é exatamente a intensidade do desconhecido e não cotidiano. E a impressão que nos causa.

Ainda que sejam aparentemente diferentes os animais e as paisagens, as pinturas estão indissoluvelmente unidas por alguns elementos fundamentais: a irradiação luminosa, a estranheza em

relação ao cotidiano, a integração entre o ser e o entorno e, não menos importante, a evocação e a formalização perceptiva que ocorre no espectador.

Eu tenho consciência da gravidade desta afirmação, pois estou dizendo que a pintura de Sérgio Lucena se completa e existe no momento de sua comtemplação. Certamente é um objeto em si mesmo e uma realidade pictórica. E isto não depende de qualquer um de nós, é o resultado da ação do artista e a cristalização visual de sua pesquisa do que existe de mais desconhecido em si mesmo. A pintura de Sérgio Lucena é a revelação de um continente individual. Mas não de um continente contingente, mas um continente transcendente. Entretanto, este continente submerso que emerge, profundamente individual, é humano e, por nuclear, semelhante ao humano. É onde nos encontramos, o contemplador e a pintura, neste núcleo essencial. Ao pesquisar e revelar o continente oculto, este mítico continente que nunca submergiu pois sempre esteve ali, o artista registra o universo humano, o que é comum a todos. O contemplador amplia os limites deste universo.

O poeta Mário Quintana escreveu um poema que trata desta questão, da relação arte e público, artista e leitor, que parece antecipar o assunto que estamos tratando. Trata-se do poema “A Imagem perdida”, do qual reproduzimos fragmentos.

“...Eu só tenho um valor estimativo...

Nos olhos que me querem é que eu vivo
Esta existência efêmera e encantada...

Um dia hão de extinguir-se e, então, mais nada

... Mais nada
Refletirá meu vulto vago e esquivo...

E cerraram-se os olhos das amadas,
O meu nome fugiu de seus lábios vermelhos,

... E, no entretanto, em meio desta longa viagem,
Muitas vezes parei... e,
nos espelhos,

Procuro em vão, minha perdida imagem! Procuro em vão minha perdida imagem!”

Nestas duas séries distintas de pinturas, um outro elemento, a diversidade, reforça o conceito de complementaridade. Uma série é marcadamente figurativa com o desenho dos animais. Quiméricos, compostos, feito de partes, híbridos, mas formalmente dentro de uma tradição que nos vem do grotesco, é reforçada na Idade Média, encontra abrigo no surrealismo e na arqueologia com a revelação de ritos e templos. Do arcaico ao atual. O surrealismo, com a sua fascinação pelo inconsciente freudiano, habituou a nossa época ao que parecia o território exclusivo de ídolos e monstros e seitas pagãs. Hoje, talvez, pareça prosaica esta iconografia assustadora. Em Sérgio Lucena estas figuras são transcendentes, feitas de labirintos e volutas e, principalmente, envoltas em luz, a ponto de não sabermos o que é a figura e o que é o entorno e pensarmos que não há esta distinção. O ser e o entorno compõe uma única imagem. Não são animais, mas seres transcendentais. Deidades. Deuses. E Deuses da Terra, do interior, dos subterrâneos, das cavernas, do centro da terra. Deuses que permaneceram ocultos, mas que a nossa época tornou conhecidos, simbólica e materialmente, com as conquistas arqueológicas e a teoria psicológica.

A outra série, registra árvores e centros energéticos. Também aqui estamos iconograficamente amparados em ampla tradição. A árvore bíblica, a árvore da vida, a árvore cabalística, as mandalas, a arte druídica, a arte dos jardins japoneses, as várias representações

do onphalo, o umbigo do mundo, a arte totêmica. Em todas estas tradições e manifestações artísticas e religiosas, o registro é o do eixo do mundo, o que nos liga ao maior, ao que está no alto, a conexão entre a energia divina e a energia da terra.

Nesta série de pinturas de Lucena não estamos simplesmente diante de um círculo, uma esfera ou uma árvore, mas de uma manifestação simbólica destas questões essenciais a percepção holística do universo. Da mesma maneira que na série anterior, não é possível distinguir o objeto central pintado, árvore ou circulo, do seu entorno, pois a integração cromática elimina o fundo-forma e nos mostra que se trata de uma só coisa. Não é exagero, considerando o simbolismo e o tratamento da pintura, dizer que aqui também estamos tratando de Deuses, mas do alto, do cosmos, da ligação do alto e do embaixo, do nó primevo da aliança. Deuses do Céu.

A complementaridade das duas séries de pinturas fica definitivamente sacramentada, Deuses da Terra e Deuses do Céu.

O viajante imóvel. A pintura de Sérgio Lucena é elaborada com requintes de sombras e luzes nuançadas e marcada por uma precisão detalhista que, numa época de mensagens instantâneas, surpreende. O artista parece ter disponível todo o tempo do mundo e uma previsão de longa existência. Em formatos grandes, nestas pinturas se registram seres e mundos desconhecidos, nas quais a estranheza torna-se conhecimento.

Alguma coisa não está exatamente de acordo com a consoladora convenção. E, no entanto, concomitante com este universo de interna indagação, existe o caráter apaziguador da obra realizada com atenção suprema, de cuidada qualidade formal. Uma obra que é o próprio fim da atividade artística e não um intermediário instrumento. Na verdade, todo o tempo do mundo que o artista dá a si mesmo, independente de saber se a sua vida durará tanto quanto a de Matusalém, gera esta sensação: a obra é tão

valiosa para o seu criador que podemos partilhar deste universo de eleição. O objeto de atenção do artista e do público é o mesmo.

As pinturas de Lucena têm sempre este aspecto de que foram alvo da máxima atenção do artista e que estavam acima de quaisquer outras preocupações. Algumas vezes, é tal o nível de detalhes e intencionalidades que o artista coloca que ficamos com a impressão de que estamos diante de uma obra-síntese da qual sairá uma série inteira. Os fragmentos têm vida própria.

É inegável que o trabalho de Lucena transmite a forte sensação de que são autobiográficos. Não a biografia comum, a vida cotidiana do artista, os seus prazeres e agruras diuturnas. Ainda bem, pois acreditamos que isto interessaria à muito pouca gente. Aqui se trata da existência sensível e do seu percurso e da intensidade do chamado. Para quem observa o percurso artístico de Sérgio Lucena é evidente que ele é marcado pela vocação, no seu sentido real, de chamamento.

Há muitos anos, em João Pessoa, o artista Flávio Tavares mostrou-me uma série de pinturas, “A Divina Comédia”, feita em parceria com Sérgio Lucena. Espanto duplo: a coragem de interpretar Dante, depois de tanto que já se fez neste sentido; e uma série de painéis feitos em parceria. Desde então, fiquei curioso sobre este Lucena que dividia a tela com Tavares. E, em pedaços, fui escutando uma biografia de busca: morou na Chapada dos Guimarães com a família, morou em Berlim e, agora, em São Paulo.

O nordeste brasileiro habita com facilidade no mítico, no folclore, no fabulário anônimo e na iconografia popular. Pois bem, este continente alegre e trágico, de grande poder narrativo, também está presente na obra de Sérgio Lucena. Mas como em outros artistas significativos do nordeste, assume uma fisionomia própria. O que já observamos a respeito de Gilvan Samico, César Romero, Cícero Dias, Miguel dos Santos, Francisco Brennand, Mário Cravo Jr., Mário Cravo Neto, João Câmara, Carybé, José Claudio. Em Lucena, este substrato da cultura anônima, cada vez mais, se transforma em solo fertilizado que dá origem a uma nova espécie de frutos.

A primeira impressão sobre Sérgio Lucena tem um caráter aparentemente contraditório. O artista parece quieto e ponderado e, simultaneamente, viajante contumaz. O sedentário e o nômade concomitantes. Extremamente cordato e inflexível. Amável e atento ao interlocutor, mas cioso de sua experiência vital. Uma reflexão sua, clarifica esta aparência ambígua: “...não é do mundo objetivo de onde elas (mensagens) partem, mas daquele espaço interno, onde habitam as imagens primordiais, as figuras arquetípicas e instintuais, cuja natureza essencial permanece constante a despeito do tempo e sua dinâmica...” . Na transformação evolutiva que observo no seu trabalho encontro essa mesmo constância visceral. E vejo justificada a minha primeira curiosidade sobre este artista e para isto me valho de uma sentença de Oscar Wilde: “...só as pessoas superficiais não se deixam levar pelas primeiras impressões”.

O viajante imóvel.

Não há mais porque acreditar que o assunto na pintura pertence à uma convenção ultrapassada e burguesa e que o único que importa é o tema, ou seja, as relações internas especificas, relações de cores, planos, composição. E que, mesmo isto, é questão ultrapassada, superada pela auto-indagação ontológica do significado da arte. A arte indaga se existe arte. A arte indaga se deve ser transitória ou perene. E o artista indaga se existe o artista. Esta crença, a de que só vale a auto-indagação ontológica, e a negação da própria existência, o dogma da morte da arte e do artista, transformou-se em manifestação fundamentalista sem a base de uma escritura sagrada, mas com um profeta, malgré lui, chamado Marcel Duchamp. Quem quer saber deste niilismo juvenil?

E a distinção entre assunto e tema, tão cara aos teóricos e artistas, não deixa de ter o seu lado cômico, uma vez que nada pode apresentar mais o assunto como interesse principal e superlativo que justamente a arte dos que o negam. A arte do século vinte é marcada pela inserção material do assunto na própria arte. Primeiro com a colagem, agregando matérias diversas às pinturas. Depois o objeto,

seguidamente como uma colagem tridimensional. Ou o objeto propriamente dito como a entronização de um determinado assunto. Outra coisa não fez a pop art, inclusive com a incorporação dos assuntos do mass midian, desde objetos de consumo até a comunicação comercial. As instalações criaram verdadeiros ambientes-assunto. E, finalmente, mas não menos importante, a convicção existente e cantada em verso e prosa, desde o modernismo até os nossos dias, de converter o público à determinada ideologia, seja conceitual, comportamental ou tipo de percepção. Este discurso de convencimento, o discurso de proselitismo, é um verdadeiro discurso-assunto.

Os séculos vinte e vinte e um indagam e afirmam o lugar do homem no mundo e o significado do real. O alargamento do conceito de real é a principal marca da ciência contemporânea e da própria arte. É neste contexto que se insere o retorno ao sagrado e a identificação do homem e do mundo como um sistema integrado e uma compreensão holística da realidade. O homem não quer mais ser parte excêntrica, mas parte integrada, e deseja uma compreensão mais real do mundo e não uma compreensão utilitarista.

É neste contexto que o trabalho de Sérgio Lucena se situa. Ele ajuda a compor esta tendência da época. Inegavelmente Lucena dedica-se a sacralidade da arte. E utiliza para isto os recursos que a arte conquistou desde sempre. A sua pintura tende ao infinito, uma vez que este é o seu aprendizado, mas continua pintura. O artista não está ligado à história seqüencial da arte, uma invenção de cunho positivista que prevê o progresso sem fim de tendências e vanguardas. Sérgio Lucena está integrado ao fazer arte. Não seria possível situa-lo na história das vanguardas, uma vez que ele não vem depois de alguém e não antecede a outro alguém. Nós estamos diante do fenômeno artístico mais simples: um pintor que pinta. Se quiséssemos fazer blague diríamos que Sérgio Lucena pertence à arte e não à história da arte.

“A mim isto aponta para um estado onde não há mais perfeitas respostas, sinto ser um salto não da consciência, mas da alma por

sobre a consciência. Parece chegar a um ponto onde a consciência passa a funcionar sem a pretensão de tudo saber e poder dar a ultima palavra.”

Trecho de correspondência de Sérgio Lucena, em 2007, tratando da identidade do ser.

"...Não considero mais a felicidade inatingível, como eu acreditava tempos atrás. Agora sei que pode acontecer a qualquer momento, mas nunca se deve procurá-la.... Agora o que procuro é a paz, o prazer do pensamento e da amizade. E, ainda que pareça demasiado ambicioso, a sensação de amar e ser amado."

In “Ensaio autobiográfico”, de Jorge Luis Borges.

Esta mistura do pensamento do extremo oriente, com a sua concepção de fatalidade e de tempo (não se deve procurar a felicidade, fique imóvel), com a incomunicabilidade do ocidente (solidão, ceticismo, carência) e a maturidade de quem percebe que a essência é amar e ser amado, com o objetivo de comunhão, faz o fascínio deste texto.

Finalmente, penso que estas duas séries de pinturas de Sérgio Lucena tratam da identidade do ser, da possibilidade de transcendência, da incorporação da intuição como método válido de conhecimento. E, principalmente, acredito que estas pinturas tratam de um binômio fundamental, humildade e comunhão.

Jacob Klintowitz